PONTO PT | O voo da aculturação

Embarque. Aquele momento em que uma fila interminável reúne crianças impacientes, resmunguice, atropelamentos e chico-espertos. Aguardo. Passada a fase das burocracias, mergulho no ambiente singular de um jetway, que por outras palavras se definiria como um portal que une dois mundos. O ambiente permanece inóspito. Afinal, ainda se trata do procedimento de embarque.

Chego à porta do avião. Sou recebido pela vénia sincronizada de quatro simpáticas mulheres. Não ouvi um good evening, como seria expectável. Em uníssono entoaram um estranho sa was dee ka e, ainda que irracionalmente, fiquei perplexo e sem reacção. O que dizer? Senti-me verdadeiramente “à nora”. Onde é que está o hi!? Onde é que está o aperto de mão? Onde é que está o toque? Onde é que está a minha realidade e natureza? E no entanto, elas não eram doutro planeta… Estava despido dos princípios e valores reguladores da minha natureza. Se actuasse, não actuaria de acordo com as novas regras em vigor numa cultura distinta. Tive de me educar, reaprender costumes e assimilar valores. Tive de passar por um processo civilizacional para me inserir numa nova sociedade. Tive de me aculturar. Foi o que fiz no meio dia de voo. Ressenti-me ao ter questionado pelos tradicionais talheres. Garfo, faca e colher, onde estão? As doze intermináveis horas “normalizaram-me” no seio de uma sociedade que, embora contemporânea, se rege por princípios totalmente opostos aos meus.

Onde estava, afinal, a cultura internacional de que, por vezes, se fala? Não será possível haver um entendimento unânime em relação a certas práticas de forma a evitar estes “mal-estares”?

A cultura não está de tal forma generalizada que se possa considerar unânime. E foi nesta ideia que baseei a minha conduta nesta travessia aérea. Se não sei comer com os “pauzinhos” então não será, certamente, devido à minha burrice, que é como quem diz incultura. É assim e pronto. As minhas origens não me puseram os pauzinhos na frente quando nasci! Sem dúvida que esta autorreflexividade nos conforta. Chamei uma das, sempre atenciosas, assistentes de bordo e pedi, logicamente, talheres. Não teria sido bonito fazer um cagaçal naquele espaço onde iria passar mais dez horas sob um vigilante escrutínio dos vizinhos de bordo.

Terei sido vítima de tentativa de imposição de cultura? Em rigor, não me impuseram nada. Serviram-me com os pauzinhos sabendo que sou Ocidental. A dedução que eu seria, provavelmente, incapaz de comer com aqueles utensílios não me parece instantânea. Contudo, o que aconteceria aos meus talheres se essa minha cultura fosse ignorada ou influenciada? Onde está a diferença por que nos pautamos e convivemos? Lá voltamos nós ao chavascal do meu solitário assento…

É da convivência que nasce, naturalmente, a cultura. É nesse ambiente que estou inserido, entre linhas de revistas de bordo, refeições medíocres e uma azáfama típica de um momento destes. Olho para a esquerda, direita, para trás, dou voltas à cabine, falo com um, falo com outro, aguardo que chegue a minha vez de ir à casa de banho e concluo estar perante a, por vezes designada, “biodiversidade humana”.

Porque é que constato isto? Simples. A cultura é ordem, ainda que não seja universal. Há uma regra imposta. E onde observo isso? Na fila da casa de banho. Aquela pela qual rezamos que seja rápida. É que existe uma fila! Uma fila é uma regra. Porque é que vai o da frente em primeiro lugar e não o de trás? Se estivermos atrás, é certo que o que nos ocorrerá em primeira instância será passar “despercebido” e tentar ser o próximo. E é nesta ambivalência emocional que me encontro.

Por um lado, sinto-me tentado a infringir a lei que me obriga a esperar, mas por outro lado, a defesa e protecção do sistema social e da ordem é um imperativo para que não haja punições que advenham do meu comportamento. Chamar-lhe-ia um impasse, um tabu.

Regressei ao meu lugar. Ainda um par de horas para voar e a insuportabilidade de permanecer fechado neste avião apodera-se de mim. Lá vêm elas outra vez. Sorriso no rosto, eficiência e hospitalidade. “Quer talheres?” Não! Eu consigo. Eu tenho de me adaptar a esta realidade. O meu medo prévio, de não passar por ser civilizacional, foi vencido. Nada correu mal. Não foi preciso esperar muito para se ouvir o trem baixar. Dentro de minutos tudo seria diferente.

O primeiro impacto, não no solo, mas do ritmo frenético de uma capital asiática não poderia ter sido outro. Alucinante. Contrastes culturais em catadupa. Circular pela esquerda. Maior diferenciação de género. Religião e formatação da sociedade inimagináveis.

Viajar é isto. Lidar com a nossa parte incompleta. Não saber como reagir e aprender. Viajar é reeducarmo-nos. Viajar é tornarmo-nos “inseríveis” noutras comunidades. Viajar é lutarmos para sermos felizes. Viajar é viver, porque a vida só faz sentido se procurarmos a felicidade e é a cultura que nos dá as regras do jogo.

Bangkok_WatPhraKaeo

Estou em Banguecoque e não conheço ninguém. Olho em redor e tudo é estranho. Nunca andei descalço na rua e faço-o pela primeira vez. Não me reconheço. Adapto-me e sigo leis. Claro! Se a cultura nos fornece as leis, tem, intrinsecamente, que ser maleável e adaptar-se às diversas situações em processos de reeducação.

Percorro avenidas, ruas e becos. Vejo milhões de pessoas e no entanto não sei quem são. Esta realidade é a tendência universal e só neste caso podemos, de facto, dizer que a cultura nos conduz a uma uniformização da sociedade. Aglomeramo-nos em metrópoles poluídas, frenéticas e lotadas. Não nos destacamos. Somos apenas mais um. A cultura corre o risco de ser uniformizada e massificada. É contra esta maré que a sociedade urge remar, porque só faz sentido falar de cultura sempre e quando exista no plural, pois essa é a chave do progresso, do debate, da ideia e da ordem.

O processo de aprendizagem e de conhecimento não se faz apenas ao ir. Quando se regressa, o nosso comportamento, dito Ocidentalizado, terá de mudar. Afinal, houve um choque cultural e a ideia é trazer mudança e progresso, caso contrário a travessia terá sido em vão.

Uma vénia a quem, um dia, se lembrou de viajar.

“The real voyage of discovery consists not in seeking new landscapes, but in having new eyes”

Marcel Proust

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